Histórias como tecnologia para acessar a Alma do Mundo e o projeto Tudo se Transforma
Assim como árvores, temos também histórias centenárias, milenares, fortemente enraizadas em nosso imaginário coletivo, que seguem dando seus frutos: novas histórias, que desabrocham nas mais variadas linguagens.
Nunca somos completamente originais. Nossa criação artística é composta dentro de uma língua, num estilo, gênero ou ritmo previamente desenvolvidos, cheio de referências e recortes, quer tenhamos consciência disso ou não.
Mais do que criadores, somos exploradores, participantes ativos de uma conversação, de uma cultura, que começa antes e segue depois de nós. Estamos também inseridos num contexto geográfico e histórico, com seu próprio clima e sabor. Seria possível até perguntar se somos nós quem cantamos e narramos nosso tempo e espaço, ou se é o próprio território, com seus relevos e mistérios, que canta e conta sua história através de nós.
Por isso percebo a arte e cultura desenvolvida pela humanidade como um processo natural e cíclico, sempre a se renovar a partir da recombinação dos mesmos elementos, em infinitas variações. Seguimos parte da natureza, mesmo quando fantasiamos com a maior distância que somos capazes de conceber. Somos a própria natureza a falar, se mover, se experimentar, a se conhecer.
Por essa e por outras que minha Companhia se chama Circular, e seu projeto de composição dramatúrgica (ou invenção e vivência de histórias) Tudo se Transforma.
Te convido a trilhar comigo essa aventura, compondo novas mitologias num planeta em plena transição. Um novo paradigma pede passagem, é tempo de crise e reinvenção. Para atravessar um percurso difícil ou um trabalho pesado, cantamos juntos. Para vencer a escuridão da noite, uma história acalanta e reinventa o calor de uma antiga fogueira. Somos portadores de sementes ancestrais que germinarão novos modelos. Mas para isso a terra do coração e da imaginação devem estar férteis.
É sobre cuidar da fertilidade deste solo que vamos tratar.
Se te inspira, vamos juntos.
Nessa história nada se perde e nada se cria.
Uma história tem seu próprio ciclo, suas fases e cadências.
Não é diferente do ciclo da lua, que começa imperceptível, se desenvolve, chega a um ápice e lentamente se encaminha para um desfecho, até se tornar novamente imperceptível e recomeçar um novo ciclo, uma nova história.
O ciclo da lua, das águas, da planta, da mulher e das histórias, segue um mesmo padrão.
É natural para o Homo Sapiens Sapiens narrar suas desventuras, sejam elas reais, projeções de possibilidades futuras ou ficções. Em verdade nosso cérebro pouco faz distinção entre essas categorias, para ele é tudo real. E em alguma esfera do espaço-tempo que habitamos, também. Os limites da realidade se ampliam quando consideramos que um sonho que temos ao adormecer é tão real quanto uma experiência que vivenciamos acordados, apenas tem naturezas distintas.
Uma criança que brinca profundamente sabe disso. Seu carrinho de madeira e sua experiência ao conduzi-lo é tão concreta quanto a produzida por um carro de aço guiado por um adulto. Ambos são reais e correspondem ao nível de responsabilidade de seus guias.
Além de natural para nossa espécie, a arte de compor histórias se revelou uma ferramenta fundamental para chegarmos até aqui. Arte é tecnologia, tal qual o domínio do fogo, a invenção da roda ou do arado. Por ser intangível não é menos real nem menos poderosa. Como as ondas invisíveis da eletricidade, rádio ou internet não o são. Por mais que tenhamos evoluído nesse sentido, nada ainda se compara a alta tecnologia e complexidade de um corpo humano. Interessante notar que o resultado do investimento da mais alta quantia, com a inteligência e estudo de ponta do mais conceituado grupo de cientistas, da mais conceituada universidade ou laboratório, com os melhores aparelhos que já se teve notícia, da tecnologia mais avançada e inacessível a população já dominada em algum lugar desse mundo, mesmo essa, é inferior ao corpo e a vida do ser humano mais pobre e subjugado do planeta.
Nada ainda se compara a complexidade de um organismo humano em todas as suas funções e especialidades. Nenhuma tela ou câmera é superior a íris. Nenhum computador tem a capacidade de um cérebro e assim por diante em infinitos exemplos, não apenas destes órgãos isolados, mas da complexidade do funcionamento de todos, desde o que acontece dentro de uma célula, até a harmonia de tudo funcionando, colaborando, otimizando e se regenerando ao mesmo tempo, sem cessar. O coração descansa entre as batidas.
A essa harmonia chamamos organismo, e nosso organismo individual faz parte de um organismo maior, que se amplia até observarmos o planeta. O planeta também faz parte de um organismo maior, mas por hora, quero olhar pra ti, Terra.
Se a Terra é um só corpo e todo corpo vivo é animado por um sopro, e este sopro é o Grande Mistério que separa o que se move do que está inerte (e só tende a degenerar, minguar, para depois recomeçar um novo ciclo, uma nova história) então a Terra não é apenas um corpo, um só organismo, mas também é portadora do sopro, é animada por uma força que lhe confere vitalidade, a Terra tem sua própria alma. A Anima Mundi.
É no mundo da Alma, do que nos anima e anima a Terra, do misterioso sopro que separa o que está vivo do que está morto, que reside aquela parcela de realidade que chamamos de sonho, brincadeira, história, memória.
É o sopro que faz da nossa “máquina” – corpo um organismo, e esse organismo superior a qualquer invenção humana.
É o mistério de inspirarmos e expirarmos continuamente enquanto estamos vivos, sem sequer dar por isso, que faz com que cada expiração seja um milagre e uma possibilidade. Uma via de conexão com um mundo sutil e real, tão mais real que as imagens que correm diante de nossos olhos enquanto rolamos a tela.
É preciso retomar nossos sentidos e atenção capturadas. Desenhar as fronteiras de nosso território primordial, corpo. Regenerar o coração.
Ou será de dentro pra fora, ou não será.
Observar o Ciclo da vida e o ciclo das histórias. Explorar narrativas, fantásticas ou cotidianas, adentrar o mundo da Alma, retomar sentidos, tomar as rédeas de nossa atenção para cavalgar, reconhecer e regenerar o nosso próprio território. Desenhar conscientemente as linhas que estão por ser escritas em nossa biografia, nosso legado, nossa obra de arte viva.
Essas são algumas das aspirações do projeto de composição dramatúrgica Tudo Se Transforma.
Se te inspirar, vamos juntos.
Nossos cavalos estão atrelados, a espera.
As vezes gosto de montá-lo para livre e velozmente passear até o futuro.
Depois do caminho batido, retorno, atrelo a carroça e convoco a caravana.
Vamos mais devagar, mas vamos juntos. E cada acampamento, e cada fogueira acendida, vale pela viagem inteira e pelo destino que, um dia, iremos alcançar.

