Que o mundo seja o que deseja a sua geração
Gilberto Gil
Todos que estão aqui e mais todos os que virão.
No descompasso do mundo há uma sinfonia oculta que guarda belezas e harmonias. Encobertos por ruídos altos demais, nos perdemos da fonte. O murmúrio das águas correntes que gargalham, o amanhecer no bico dos pássaros, os sussurros e valsas das estrelas em eterno giro. Mas sei que tu ainda as ouve. Como ouvia em meu ventre o fluxo do sangue e as batidas de nossos corações.
Amor da mãe. Não tenho pressa em te versar na literatura universal de um mundo caduco. Nem te ensinar os nomes desbotados das cores ou a sequência correta dos números. Não tenho pressa em que decore palavrinhas mágicas que em verdade são truques, nem que domines a etiqueta de uma civilização em ruínas.
Quero antes o frescor de tua brisa e ouvir os contos e cantos brilhantes que brotam de ti, como brota o orvalho coroando as flores quando alvorece. Quero tua mão pequena na minha ensinando caminhos esquecidos só por serem verdadeiros. Quero aprender com teu ritmo, tua pureza e com a força infinita do teu sorriso.
Num mundo em plena transição há um solo fértil para novas mitologias. Que hão de alimentar uma nova (ou mui antiga) humanidade de imagens, canções, poesias. Tão nutritivas quanto o pão. Como quem planta e colhe um novo cereal e com ele desenvolve outra receita. Outra alquimia.
Não é necessário fazer tudo como conheço se o que conheço se esfarela diante de meus olhos. Se essa civilização aos poucos cai, vira pó. Se o mundo já é outro, mesmo que o que vai ficando pra trás seja também de coisas belas, nostálgicas, preciosas e verdadeiramente mágicas.
Como quem guarda sementes crioulas, guardo recuerdos pra que plantes em teu novo mundo, meu amor. Sementes que recebi de minha ancestralidade, que procuro desenvolver e te entrego, pra que lembres de nós.
Se um novo mundo recomeça, tudo que escolho, que faço ou deixo de fazer, tudo cria novas formas de ser e estar. Somos nós os construtores dos novos paradigmas. De novas pontes, novos pães. Não preciso recitar o mesmo verso encarquilhado, pois sei que ao teu lado estou perto da fonte da vida. Plena de simplicidade e sabedoria. Plena de bondade e beleza. Plena de um sentido oculto que torna-se óbvio com tua presença.

